calça

Marina descia a rua da escola. Ia para casa com seu amigo Henrique após mais uma manhã chatíssima de aula. Eles planejavam passar a tarde estudando, pois Marina odiava Química e não entendia nada daquelas fórmulas indecifráveis.

Henrique também não.

Mas até Marina descobrir isso, passaria a tarde inteira com ela comendo pipoca, vendo Sessão da Tarde, fazendo ela rir. Era uma fantasia que alimentava fazia meses. Uma tarde só com ela.

Queria mostrar o álbum novo do Red Hot Chili Peppers. Faria até uma cópia para ela, com dedicatória, colocando as músicas mais lentas na frente e os funks batidões mais pro final. Ele era assim mesmo, meio antigo.

Marina não.

Fingiria achar lindo o CD, mas estava tão viciada no seu iPOD que acabaria usando o disco colorido como frisbee.

A Química ficou para mais tarde, quem sabe outro dia.

Deram um pulo na piscina. Henrique estranhou ver como Marina disfarçava os seios com uma faixa bem apertada. Era um biquíni com estampas do Che Guevara.

Tinha um corpo magro e ágil por causa do teatro. Atravessava uma fase em que se achava “de esquerda”. Mas ser “de esquerda” ou “de direita” era algo muito antigo e fora de moda, que até Henrique tirava um sarro:

- Hahaha. O que você vai fazer, Marina? Tocar fogo no McDonald’s ou protestar contra a Globo e a Coca-Cola?

- Ai, Henrique, me deixa ser rebelde em paz! Melhor tentar fazer alguma coisa do que ficar só assistindo.

Aplicou mais uma grossa camada de protetor solar e mergulhou de cabeça, nadando até o fundo. E a tarde transcorreu nesse embate de mentirinha entre os dois. Henrique até achava que tinha alguma chance, mas, no fundo, já desconfiava de alguma coisa.

Marina até que tentava se enganar e enganar os outros, mas estava ficando difícil. Mais tarde, no café da rua de baixo, pediu um milkshake de chocolate e Henrique um de Ovomaltine.

Não conseguia tirar os olhos da menina da mesa ao lado. A começar pelos pés calçados por um All Star azul piscina reluzente. E a calça. Ah, a calça. Vestia muito bem cada contorno das pernas e subia pela camiseta amarela com uma imagem chapada da Branca de Neve com uma metralhadora.

Tentava se enganar com mais esperança: “Calma, Marina, você está só olhando a marca da calça dela.” É, era isso mesmo. Só a marca.

- Marina! Marina! Que foi? Ficou quieta do nada. Está olhando a marquinha da calça da menina ali do lado? Bronzeada, hein! Ah... Marina pega geral! Hahaha.

- Lógico que não, cabeça! É só a marca da calça. Eu queria uma igual...

O líquido espesso do milkshake parou no meio do canudo, todo preocupado.

- Tá. E eu sou o Che Guevara.

Não conseguia parar de olhar. Conhecia a menina de algum lugar. A longa cabeleira cor de rosa, a roupa de punk... Era do colégio? Era da balada? Talvez. A menina tinha cara de vodka e fumaça de cigarro. Ah, era da balada de quinta na rua Augusta! Masmeudeus! Que sensação era aquela? Seu coração disparava.

Sua rotina de garota de classe média se resumia ao colégio, aula de inglês e teatro, sinuca... Balada com groselha e vodka. Grovó. Mas tinha todo aquele figurino básico “Oi, eu faço teatro” acompanhado dos acessórios. Saias coloridas, Clara Nunes, Viola Spolin, o corpo no espaço, vegan food.

Pensou na sensação que causaria na escola de mãos dadas com a... a... Clara! Era esse o nome dela, se lembrava.

E foi isso mesmo que aconteceu. Dividiam durante as aulas os fones do iPOD. Cada uma ouvia em mono a voz da Cat Power e se tratavam como beesha. Como no passado, quando os casais tomavam Coca-Cola da mesma garrafa com dois canudinhos ouvindo Madonna.

Depois de sessões e sessões de filmes da Sofia Coppola e Flashdance, Marina tem até um gato e se tornou fã da Chloë Sevigny. Fez uma tatuagem com três estrelinhas no pulso. Incorporou o personagem. Para ela, é só mais uma febre de verão.


Texto: Deborah Motooka | Ilustra: Gabriel de Almeida