Maria de Lurdes volta para casa depois de mais um dia de trabalho. Pelo tamanho das suas olheiras, sabe-se que foi trabalho pesado. Pautada pelo grito áspero de seu patrão, Maria de Lurdes fala xingamentos baixinhos enquanto limpa o chão e vê suas unhas vermelhas serem gastas pela água sanitária. Sabe que se o Seu Almeida escuta, está na rua no mesmo dia.

Há vinte anos esfrega o chão do Tribunal Regional Federal desejando que pudesse tirar dali os pecados impregnados em cada pequeno vão do azulejo, estilo anos 70. Não quer ser um deles. Gosta de tudo limpo. Meticulosamente limpo. Mas só daquela porta pesada de madeira pra dentro.  

Na rua, se sente em casa. Mexe com as putas e dá risada. Sabendo que todos têm um lado B, levanta a cabeça e se esquece de toda a limpeza que desejava um segundo antes. Joga o toco de cigarro no chão. Gosta da sujeira mesmo. Olha no espelho o batom borrado e se pergunta: “Quem são eles? Quem sou eu? Quanto deles há em mim?”. Dia a dia foi maculada com aquela sujeira toda. Tenta adivinhar se foi por escolha ou fraqueza mesmo.

Entra no ônibus e encosta as carnes moles no ferro da porta, de tanta preguiça. Já que tem que descer mesmo, que já fique perto da porta. Arranja energia das suas entranhas e bate papo com a amiga secretária de dentista. Fala mal do trânsito, do presidente e das contas de luz, que sempre vêm altas. Até tem vontade de fazer alguma coisa... Mas o pensamento logo se esvai como uma nuvem chata e inconveniente.

O ônibus pára. Maria de Lurdes não se dá conta de dar passagem para quem vai descer. Obstrui a passagem, atrapalha o trânsito de pessoas, causa transtorno. Não se move. Não se move. Está paralisada.     

Texto: Deborah Motooka | Ilustra: Gabriel Reis