Bossa nova, jazz e blues combinam com música e atitude pop? Claro que sim! Com ingressos esgotados para suas três apresentações no Brasil, a banda francesa Nouvelle Vague mostra que até hits sombrios do pós-punk dos anos 80, como os de Joy Division e The Cure, podem se transformar em charmosas trilhas sonoras para ensolaradas tardes de verão.

O projeto começou de forma despretensiosa em 2004 e reúne dois importantes produtores da cena francesa, Marc Collin e Olivier Libaux, e cantoras convidadas por eles a integrar o coletivo musical. O primeiro álbum, Nouvelle Vague, vendeu mais de 200.000 cópias só na Europa, com shows em mais de 20 países.

No Brasil, o arrebatamento não foi diferente. Os mais de mil ingressos que evaporaram em questão de horas para a apresentação em São Paulo e o entusiasmado público presente no show são indícios de um sucesso incontestável da banda entre as platéias indie.

O segundo e mais recente álbum, Bande à Part, apresenta covers de artistas como Billy Idol, Blondie e Buzzcocks, com batidas do folk, sem que seja descaracterizada a proposta inicial da banda de transpor essas músicas para uma sonoridade mais leve e festiva.

Marc Collins, fã de Tom Jobim, Caetano Veloso e de Cibelle, concedeu uma entrevista ao Zinnerama horas antes de se apresentar no palco do SESC Pinheiros, ao lado de sua banda e das carismáticas cantoras Mélanie Pain e Phoebe Killdeer, que acompanham a turnê.

Confira ao lado os principais trechos.

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Entrevista, Fotos e Vídeo:
Deborah Motooka
 
Marc Collins – Nouvelle Vague

Zinnerama/Deborah: Os dois álbuns da banda apresentam músicas do pós-punk e new wave, do final dos anos 70 e 80, com rearranjos baseados no jazz e na bossa nova. Existe alguma razão especial pela escolha de um ritmo brasileiro?

Marc Collins: Escolhi músicas de que gostava bastante quando era mais jovem para fazer rearranjos baseados na bossa nova. Gosto bastante da melancolia presente na bossa nova. Qualquer música que tenha ao menos um pouco desse ritmo se torna muito bonita.

Z/D: Conte-me um pouco sobre o processo pelo qual a banda passou até encontrar a melhor forma de misturar ritmos que são, aparentemente, tão díspares, combinando músicas pop juvenis com a estrutura mais complexa do jazz. Qual foi o momento em que vocês disseram “É exatamente assim que queremos que seja nossa música”? Houve realmente um processo ou tudo aconteceu numa espécie de estalo?

MC: No primeiro álbum chamei o Olivier (também produtor da banda) para fazermos a seleção das músicas. Testamos várias opções e em poucas horas decidimos. Já no segundo álbum, procurei uma seleção que, além de conter músicas de que gostava muito na juventude, representassem bem os anos 80. Bandas como Siouxsie and The Banshees e Bauhaus foram muito importantes nesse período. Para isso, fiz uma lista de músicas dessa época com as quais queria trabalhar e busquei combinar inspirações vindas, inclusive, das próprias versões originais, levando em conta as letras. Percebi, então, quais soavam melhor com a bossa nova e o jazz.  Depois disso, convidei os cantores para o projeto.

Z/D: O bacana desse projeto é que ele une letras diretas e irreverentes, características do pop, a um ritmo mais suave e jazzístico.

Pois é! Isso é muito estranho. O mais interessante nesse projeto é que ele combina vozes muito sensuais com letras duras, às vezes até políticas com ritmos como reggae, jazz e bossa nova. Acho que isso é o que torna nossa sonoridade diferente.

Z/D: Achei muito interessante o fato de que, no primeiro álbum, as cantoras não tiveram contato com a versão original das músicas que iam interpretar. Isso, de certa forma, trouxe frescor e criatividade às canções. Foi de propósito?

MC: Não foi de propósito, tanto que no segundo álbum preferi trabalhar de forma diferente. Dessa vez, apresentei a músicas às garotas antes da gravação. É claro que se alguma delas soubesse a música muito bem, talvez a interpretação não tivesse tanto frescor e criatividade. Mas, se pensarmos bem, somente na primeira interpretação conseguimos esse frescor. Depois que a música já está definida, o processo funciona mais como uma repetição do que já está estabelecido, pois os músicos já sabem exatamente o que tocar.

D/Z: Gostaria que você listasse as 5 coisas mais legais que pretende fazer no Brasil (risos).

MC: Temos pouco tempo no Brasil, pois amanhã faremos um show no Rio e, no dia seguinte, em Recife. Tivemos mais tempo na Argentina e no Chile. No Brasil, fomos a um restaurante em que podíamos nos servir de vários pratos...

D/Z: E colocar em uma balança (risos)? É muito comum por aqui...

MC: Exatamente. Não temos isso na França. Foi muito legal, pois comemos muito bem (risos)! Também queremos ir à praia no Rio, ouvir boa música brasileira e comprar instrumentos. Com certeza, há muitas coisas interessantes para se fazer no Brasil (risos).