Quando ganhou a bolsa do Instituto de Artes do Pará, Alexandre Siqueira não obtinha ali apenas o dinheiro necessário para ter tranqüilidade para trabalhar e poder deixar de lado um pouco seus projetos profissionais. Alexandre teve a partir dali a oportunidade de conhecer pessoas especiais, pessoas que lhe ensinariam muito, e teria também a oportunidade de ensinar muito às pessoas que viviam la, em Nazaré do Mócajuba, um vilarejo com cerca de 200 pessoas distante 150 quilômetros de Belém.

De início um trabalho fácil, sereno. Fotografava todas as ações da vila em que era requisitado. Casamentos, batismos, fotos 3x4, homenagens, etc. Com esse trabalho , ao que fazia todos s fins de semana Alexandre desenvolveu uma grande afinidade com a população local. Ganhou amigos, ganhou fãs e começou a ter intimidade suficiente para adentrar as casas do vilarejo sem bater nas portas, sendo sempre bem acolhido. Iniciou então outra modalidade de fotografia. Começou a fotografar as pessoas sozinhas, posando para fotos e, apartir daí, teve a idéia que hoje, é uma das mais inusitadas formas de suporte para arte.

Alexandre , medindo de forma carinhosa, a altura das pessoas em referência a seu corpo, ao regressar a Belém, imprimia as fotos em tamanho real e as revelava. Faltavam os suportes. Certa vez, já em Nazaré, em uma conversa com Dona Branca, ele teve a idéia de utilizar elementos das casas como suporte para seu rico material fotográfico. Entusiasmado começou a procurar o elemento caseiro que melhor representava o morador fotografado. De dona Branca, a toalha de mesa, do Seu Suzano a cortina. Dóceis, redes, lençóis, enfim, qualquer coisa da casa, que representasse da melhor forma a pessoa fotografada, viraram suporte.

Depois de concluída a obra, o primeiro local de exposição – que já viajou a Europa e agora perambula pelo Brasil, não podia ser outro. O pequeno vilarejo de pescadores, agora modelos fotográficos, foi o local ideal para a mostra de Alexandre. Emoção. Essa foi a palavra encontrada pelo fotógrafo para definir o seu sentimento, ao ver o povo que tanto lhe ensinou sentindo-se retribuído pelo talento do artista. Muitos nunca tinham se visto, antes de Siqueira chegar ao vilarejo, exceto pelo reflexo das águas claras do rio que por ali passa. Porém, quando viram seus corpos, em tamanho real, serigrafados em objetos que para eles não tinham valor nenhum, a surpresa e a alegria foi geral.

Alexandre Siqueira como fotógrafo, já tinha um trabalho consideravelmente reconhecido, a ponto de ganhar uma bolsa. Porém , Nazaré do Mócajuba, despertou o lado humano do trabalho fotográfico. Certa vez Alexandre parou e pensou: “Eu estou na história dessas pessoas ou não estou? Ou estou como pesquisador, vendo tudo de longe? Realmente percebi que eu estou mergulhado de cabeça nesse ambiente”. Talvez se ele mantivesse o distânciamento simplista de um pesquisdor, ele não teria o reconhecimento de um vilarejo inteiro. Como teve simplicidade e audácia, hoje além do vilarejo inteiro, Paris, Estocolmo, São Paulo podem também apreciar um jeito novo de fotografar e revelar uma obra.

Entrevista: Gabriel de Almeida e Diana Caetano
Texto: Gabriel de Almeida
Direção e Edição: Gabriel de Almeida